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#QuemPensa é Gil Costa: “Gavetas”

#QuemPensa é Gil Costa: “Gavetas”

Uma Senhora, que, por velhice, olvidou.


Laranjas na cozinha,

Podres agora.

Alguém as há-de deitar fora.

 

Óculos de ver,

Sem a lente direita.

Alguém os há-de esquecer
nalgum canto.

 

Anéis e ornamentos,

Prata, ouro e diamantes.

 

Peluches ganhos na feira

De caçadeira

 

Desenhos, cartas e livros

Foda-se… os livros…

 

Guitarras,

Lamentos,

E moedas

Para comprar cigarros.

 

Isqueiros

Cheios de uso.

Nunca usados para queimar o que deviam.

 

Os Olhares,

Que ardiam,

Apagados

 

Toques negligenciados

Sonhos inalcancados…

Textos inacabados

Verdades incongruentes…

Mensagens carentes

Fodas indecentes…

 

Noites sem sono…

 

Vontades, vaidades, caprichos.

Tesouros, utensílios, lixos.

Choros, birras e gritos.

Juras de amor infinito…

 

Crisálida oca;

Tesão de boca;

Medo da troca;

Mutilação existencial

Com Despudor carnal;

 

Um sonhar inalcançado.
Um susto de estática.

 

O luar, o vento,

O equinócio sombrio,

Que explode,

Num êxtase repentino,

Em relâmpagos e chuva.

 

Guerreiros cegos,
Batedores suicidas.

 

A dúvida;

O frio

E o calor

Simultaneamente;

 

Certeza,
Som
E silêncio.

 

Naturalmente…

 

Como toda a gente,

Que julga sentir

Imaterialmente

 

Uma Senhora,
Que, por velhice, olvidou.
Tudo o que era,
De forma inocente;

 

Gil Costa.
Ana Durão – Nervoso, por sistema