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#OndeEstá a Fuzz Store

#OndeEstá a Fuzz Store

"Já conheci muita banda massa indo em loja e gostando até da estampagem. 'Que estampa massa, que banda é essa?'"


N a Rua da Firmeza, logo abaixo de uma artéria principal do Porto, há uma montra que destoa das restantes. Onde a cidade se vai cobrindo de Alojamentos Locais, e pequenos cafés com bicicletas como decoração, uma aldeia gaulesa resiste – e os gauleses são na verdade os brasileiros Raíssa e Pedro.

Ouve-se Orange Goblin, alto e bom som, mas não ensurdecedor. Na mesa no centro da loja, um manequim ostenta orgulhoso uma t-shirt da banda Rancid, David Bowie espreita do fundo da loja ao lado de Jimi Hendrix, e em volta estão dispostos pares de meias enfeitados com “A Menina do Brinco de Pérola” e “O Grito”.

A Fuzz Store abriu no final de 2016, e encheu-se de t-shirts de bandas, merchandise de filmes, peúgas coloridas, e muitas portas por escancarar. Raíssa e Pedro chegaram ao Porto em Dezembro de 2016, vindos de Balneário-Camboril, no estado de Santa Catarina – apropriadamente, é logo abaixo da Rua de Santa Catarina que vêm inaugurar a sua loja. Lá, o Pedro trabalhava como advogado. Cá, é frontman de uma loja de paredes vermelhas e música que enche o ouvido – “foi uma ‘turn of events’”, como o próprio diz.

Já em Balneário-Camboril Raíssa geria uma loja semelhante com a mãe, que abriu em 2009 e pegou bem, então sabiam que aquele modelo funcionaria em Portugal. Por já ter vivido no Porto em 2013, fez a proposta ao seu companheiro de virem para cá, e embarcarem nesta aventura. Fizeram uma pesquisa de mercado e descobriram que este nicho de mercado estava vazio.

“Vi todo o movimento a acontecer, mas não vi uma loja específica disso. Tem lojas de discos maravilhosas, aqui, muita coisa relacionada com música, incrível, só que especificamente de merchandising não encontramos.”, explica Raíssa.

E Pedro acrescenta: “a gente entende a tendência de que estas coisas começam a ser vendidas online, mas a ideia da loja é bastante atraente, e é um gosto pessoal”.

Ambos cresceram rodeados de rock, mas num Brasil “onde a locomoção é difícil se você não tem dinheiro”, confessa Raíssa, era preciso aproximar o rock dos fãs que estavam deslocados das grandes cidades. Pedro acrescenta: “O Brasil é gigantesco, então o acesso que as pessoas de cada região têm é muito diferente de aqui. As coisas são mais compactas. Black Wizards tocou em Barcelos, que é daqui do lado, teríamos que fazer 500km para ver uma banda assim.”

O casal fala com entusiasmo da Galeria do Rock, em São Paulo, um edifício com “três ou quatro andares”, que é uma instituição para o rock brasileiro. Orbitando à volta desta “instituição”, surgiram projectos que vão enumerando, entre os quais alguns nomes familiares para o público português, como Ratos de Porão. E reconhecem que por terem sido projectos nascidos no final da década de 70, inícios de 80, em plena ditadura militar, eram bandas muito boas e com muita coisa a dizer:

“ Querendo ou não são bandas que nasceram na ditadura. A gente não podia consumir de fora, então a raiva de dentro só crescia.”

As cenas fortes que precisavam de uma força extra

Fiquei muito impressionada com a quantidade de turista que passa aí e pergunta ‘o que é que você tem aqui de local?’

Raíssa explica de onde surge a ideia da loja que abre na sua cidade natal, que depois adapta para construir a Fuzz com Pedro:

“As cenas em Balneário-Camboril eram fortes. A gente pegou a cena punk, hardcore, metal, os períodos temporais das cenas são sempre específicos, mas querendo ou não o merchandise sempre foi escasso. A galera tinha que achar na internet, ou viajar para comprar, então quisemos tornar mais próximo e mais real. Porque quando fica mais próximo, é o mundo todo que fica mais próximo de você quando você vai num lugar procurar alguma coisa. Já conheci muita banda foda indo em loja e gostando até da estampagem. ‘Que estampa foda, que banda é essa?’ Então eu fui procurar a banda e fiquei ‘porra, que bala’, como quando você vai em loja de disco, e fica horas olhando, folheando.”

Então, mais do que levar uma proposta nova aos fãs locais, Raíssa e a sua mãe faziam por facilitar o acesso desta comunidade a um mercado que lhes era difícil aceder. E apesar de hoje a tendência ser comprar online, como reconhece Pedro, a verdade é que há coisas que a Internet não consegue oferecer, como o acolhimento que o casal recebeu ao chegar a Portugal. “Logo que abrimos a loja entrou um cara que ficou surpreendido com uma loja destas aqui, e a gente perguntou que é que ele tinha para apresentar para nós, uma parada que eu não via uns dez anos, logo ele fez uma selecção, gravou um CD… Foi realmente acolhedor. Que massa. Mostrou-nos 10000 Russos e outras bandas”, conta.

A aproximação às bandas locais é dos objectivos mais imediatos e mais claros que o casal tem. Já algumas bandas têm procurado a Fuzz para colocar material à venda, “mas a galera ainda ‘tá tímida”, brinca Raíssa. Neste momento, há “cinco ou seis” projectos locais com t-shirts à venda na Fuzz, e a ideia é que deixem também discos seus para venda. Não pretendendo com isto suprir o trabalho das demais lojas de discos da cidade, já que “já tem lojas muito legais aqui que fazem isso, que estão aqui há muito tempo e são muito boas no que fazem”, assegura Raíssa.

“Tem muito turista, cara, fiquei muito impressionada com a quantidade de turista que passa aí e pergunta ‘o que é que você tem aqui de local?’. E a gente já cansou de botar no Spotify. Tanto que a gente já falou que se querem vender camiseta têm de pensar bem nas estampas, tipo Heavy Cross (of Flowers).”

“A loja chama muito a atenção dos turistas, que não conhecem a banda mas querem levar algo daqui. Tanto que a gente sempre fala, ‘se está levando a camiseta, escute essa banda!’. E se está tocando perguntam mais que uma vez o que está tocando, e chegam a passar horas ali na loja.”

 

A cena local precisa de si mesma

O trabalho da Fuzz não almeja ficar pela venda de merchandise ou de discos, apesar de ser esse o objectivo principal deste jovem casal brasileiro. Querem ter mais bandas locais com merchandise à venda na loja, pelo menos mais 20 do que as que já têm, e no futuro ter um espaço maior que permita uma melhor estrutura para o apoio a estes projectos. Raíssa fala “num sonho louco de intercâmbio de bandas” entre Brasil e Portugal, mas para já não é o fulcral.

A conversa com Pedro e Raíssa foi longa e animada.

Por conhecerem tão bem e tão proximamente como funcionam os projectos jovens e pequenos que estão a tentar lançar-se, identificam como sendo de grande importância a existência de espaços como a Fuzz, ou o Barracuda Clube de Roque, ou a Porto Calling. Contam a história de amigos que passavam anos a tocar e a treinar para serem melhores músicos, mas a quem só pediam concertos de covers, o que os deixava profundamente frustrados, e sem capacidade de lançarem os seus projectos próprios:

“É frustrante, tu não ter voz no teu próprio lugar.”

A conversa com Pedro e Raíssa foi longa e animada – desde os projectos anti-culturais no Brasil, até à saúde que vêm na cena underground portuguesa, passando por projectos educativos, e solidariedade no movimento. Mas não há linhas que cheguem para tudo.

Por isso mesmo, convidamos os nossos leitores a que lhes façam uma visita. Não sabemos onde a Fuzz estará no futuro, com uma secção dedicada a 100 bandas locais, quiçá com rede suficiente para organizar um intercâmbio de bandas. Mas o que sabemos é que estando #OndeEstá hoje, é uma suficiente plataforma para um jovem casal que vive para o rock, e que quer dar tudo em retorno a esta comunidade.