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#QuemPensa é Sérgio Morais: “Cuecas diferentes”

#QuemPensa é Sérgio Morais: “Cuecas diferentes”

Deveria haver espaço para todas as vozes, não para as mesmas com cuecas diferentes.


Faço isto por mim porque se não o fizesse ainda era mais miserável do que sou agora.
Às quatro da manhã levantei-me da cama para lavar os dentes porque me sentia só.

Como de costume as minhas gengivas sangraram, dei aquele suspiro rotineiro e deixei o sangue correr até me fartar. Voltei para a cama. Estava muito frio. Depois estava muito calor. Levantei-me de novo para fazer chá de camomila porque dizem que é calmante, mas eu acho que é engodo porque depois de o beber continuei desperto e igualmente tenso.

Uma vez que não conseguia dormir decidi escrever um bocado. Parei a meio de uma página para pensar numas questões interessantes: porque é que estou a fazer isto? Porque é que alguém faz isto? Porque é que alguém se aventura nestas coisas das escritas e das pinturas e das músicas e dos cinemas e dos “não-sei-quês” ao cubo?

É muito engraçado pensar que é por alguém, para alguém ou que simplesmente se faz, mas eu não acredito muito nisso; nem tampouco é pelo dinheiro, porque se fosse estaria a correr muito mal – pelo menos para mim. O que sucede comigo (e, suponho que, com muitos outros) é simples: não tenho escolha. Faço isto por mim porque se não o fizesse ainda era mais miserável do que sou agora. Sou um egoísta de merda. Gosto de o fazer? Sim. Mas também gosto de comer feijão com arroz e não tenciono abrir um restaurante.

Algo que faz tudo perder sentido se lá não estiver.

Faço isto porque quero. Quero mesmo, de verdade, e preciso desesperadamente de o fazer. Não é um “querer” como quando vais a um restaurante e pedes uma Coca-Cola porque “queres mesmo uma Coca-Cola”, mas só há Pepsi por isso tu encolhes os ombros e bebes na mesma. É algo que transcende completamente toda a vida. Algo que faz tudo perder sentido se lá não estiver.

Por isso é que a indústria da arte me faz confusão.

Por exemplo: estão-me a tentar dizer que o objetivo de vida de pessoa X é cantar sobre quantos carros tem na garagem e falar sobre o facto de não necessitar de pagar entrada na discoteca local para conhecer parceiros sexuais dado o seu estatuto social?

Olha que gabarolas. É também mentira, mas isso não interessa.

Confunde-me porque industrializar ideias e conceitos predeterminados é parvo, já que todos temos as nossas ideias e conseguimos pensar por nós próprios. Acho eu. Conseguimos? Acho que sim. Se calhar não. Não sei. Há quem tente dizer o que precisa, com a vontade e o conhecimento todo que tem, pelos meios que ama, sem que alguma vez alguém os ouça – e isso é a verdadeira confusão.

Deveria haver espaço para todas as vozes, não para as mesmas com cuecas diferentes.

Deveria haver espaço para todas as vozes, não para as mesmas com cuecas diferentes.

Faço isto porque tenho uma vontade enorme de descobrir por mim o que é que estou aqui a fazer e a confusão que para aqui vai; o mundo da arte (nunca a indústria) é o que me leva mais perto das respostas para as minhas perguntas – por muito negras que sejam; por muito “ácido” que me tornem. Há tanto conhecimento no mundo que me espanta a falta vontade de o alcançar, provada pela “pescadinha de rabo na boca” que é a cultura de massas. É como quem diz que só gosta de um género musical: só gostas de um ou não tens paciência para ouvir uma coisa nova porque estás confortável assim?

Às sete e tal da manhã levantei-me da cadeira para ir à janela ver a rua que, ignorando todo o estado de espírito, se mantém no mesmo lugar. Pelo menos os dentes estão lavados e já discuti com as paredes.

 

Sérgio Morais.

 

Café Orpheu – Cinara Pisco

1 Comment

  1. […] ora, eu estou nas artes há mais de dez anos, oficialmente, e antes disso já pensava no assunto, porque querer ser artista não é, na minha opinião uma questão de querer, é uma questão de instinto e necessidade. […]