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#ComoFoi Pérola is Burning

#ComoFoi Pérola is Burning

É meia-noite e já se sente o calor a subir. O Carnaval lá fora está frio, mas a voguing extravangaza do Pérola Negra no passado dia 4 de Março foi ardente.


Em homenagem ao lendário filme Paris is Burning, o Pérola Negra recebeu um deslumbrante concurso de voguing na cidade do Porto. E foi uma noite em que se fez história. Com Natasha Semmynova como Mestre de Cerimónias, não se esperava menos.

 

O primeiro concorrente é Sebastião. Sobe ao palco de fato negro e camisa branca, impecavelmente maquilhado, e com uma revista da Vogue na mão. Apresenta um glam masculino, e encara o público sem receios.

O que Sebastião nos traz é o que se espera do melhor do voguing.

As poses e os movimentos impecavelmente dominados, e uma expressão facial provocadora e divertida. De fundo, ouve-se “Respect!” de Adeva, os assobios entusiásticos do público, e “yeeeesss queeeen!”.

Após breve deliberação do júri, constituído por Aurora Pinho, José Capela e Helena Guerreiro, foi estabelecido que a competição era fortíssima, e ainda só tínhamos visto o primeiro concorrente.

Logo de seguida, sobe Soraya Queen, com banda sonora da rainha RuPaul. Soraya é mais “fishy” – no jargão das drag queens, significa que se apresenta de forma mais feminina/efeminada. Tem roupa dourada e vermelha, lantejoulas, e um olhar penetrante. É mais bailarina e menos performer que Sebastião, sem medo ir até ao chão fazer floorwork.

Abra-se a pista para Babaya Samambaya. Assim que ela sobe ao palco, queixos caem.

Esta drag queen é nada mais nada menos que a palavra “feroz” feita pessoa.

De cabelo vermelho fogoso, e um olhar que diz “sexo” a cada curva da estrada ou dos corpos, Babaya deixou o público boquiaberto do princípio ao fim. Em especial ao jovem ruivo que foi levado para o palco como bailarino convidado – mesmo sem saber do convite. Babaya é acrobática e mostra-o sem o menor receio, com uma performance mais sexual que as anteriores. Finda a sua actuação, Natasha informa que o nome do evento foi mudado para “Noivas de Santo António to be”.

Eis que se apresenta Fabricio Fabricia. A androginia é elemento central nesta performance, com vibes de Prince a emanar de cada poro. Podemos pensar numa Naomi Smalls (na última temporada de All Stars) mais latina.

Mais solta. Mais selvagem.

Fabricio Fabricia não negligencia a expressão facial um segundo que seja – “serving face all around”, e é o primeiro concorrente a juntar um elemento cómico à sua performance, quando simula ficar preso numa espargata. Tão convincente foi que elementos do público ficaram genuinamente preocupados.

E entra em palco o único par a concurso da noite – e Natasha faz questão de sublinhar que a última vez que fez par foi lá nos idos de 1999. São os Seven Hills 9081, e a estranheza inicial do público rapidamente se desmontou – junto com o outfit do par.

O que começa por hip hop e breakdance, com gorros e roupa larga, vai-se desmaterializando. Há sugestão de passos de voguing nos passos de hip hop, mas é apenas um gostinho que nos dão. E junto com a coreografia, vai-se desmontando a roupa. Debaixo daqueles outfits largueirões, tanto André Cabral como Piny levam um longo vestido preto e um lenço sobre os cabelos curtos. A intensidade da dança vai subindo conforme a roupa se vai espalhando pelo palco.

A dada altura deste makeover inusitado, também os vestidos saltam fora, e cada pose que os Seven Hills 9081 assumem é em si mesma uma capa de revista.

Uma pausa para respirar fundo, e Natasha anuncia que duas surpresas chegarão antes ainda do anúncio do vencedor do voguing extravaganza. Então sobe a nossa MC ao palco com um bonito body preto, e no espaço de três músicas, aquele body deu lugar a outros dois – a pergunta que se ouvia: “quantos mais outfits é que ela tem ali de baixo?!”. Foi um magnífico momento de lypsincing, oferecido pela MC mais sassy da história.

Depois todos os concorrentes da voguing extravaganza sobem a palco para presentearem o público com uma espectacular coreografia a seis. E o júri vai deliberando.

Finalmente, anuncia-se que a final do primeiro concurso de voguing do Porto vai ser disputada entre Sebastião e os Seven Hills 9081. A batalha é intensa, as paredes escorriam suor e antecipação, os assobios e as palmas quase abafavam a música.

E, no fim, é Sebastião quem leva a coroa.

Após a entrega da coroa ao vencedor, Natasha faz um apontamento mais sério a uma casa já bem cheia:

“Isto não é só uma arte, isto não é só entretenimento. Não é só drag, ou bissexual, somos seres humanos e viemos para ficar.”

E Sebastião reafirma:

“isto já existe há muito. E vai continuar”.

 

E quem é Sebastião, primeiro vencedor da voguing extravaganza do Porto? Tem 23 anos, é estudante de Artes Plásticas na FBAUP, e apresenta-se como homem gay. Explica que a sua procura enquanto jovem artista é “o que é para mim a masculinidade; não quero ser um estereótipo masculino, nem quero ser rapariga, quero ser quem sou”.

Não se vê, para já, a fazer full drag, e daí a exploração da androginia no seu voguing e no seu trabalho artístico, que também fazem parte do processo de descoberta da sua identidade.

“A primeira vez que vi voguing foi com a FKA Twigs, e daí descobri o Paris is Burning. A história do voguing interessa-se, e comecei a investigar. Estudei a old way e a new way, a transição entre as duas, e tentei descobrir com o que me identifico mais.”

Quando confrontado sobre se haverá espaço para mais voguing e mais manifestações de identidades queer na cidade, Sebastião é taxativo: “Tem de haver. Há espaço para tudo e tem de haver espaço para tudo. Não pode tornar-se demasiado mainstream, porque mesmo a origem do voguing vem do ballroom, que incluía todas as pessoas marginalizadas”.

Já são cinco anos de voguing, neste que foi “um processo lento”, descreve. “Só nos últimos dois anos é que consegui construir um arquivo”. E este arquivo transforma-o na sua performance.

“Eu não faço voguing 24 sobre sete. Mas faço voguing vinte sobre sete. Enquanto me visto, assim que chego a casa, enquanto cozinho. Tenho de mecanizar os movimentos, para que depois possam surgir espontaneamente e de improviso”.

E mais: “O Sebastião sou eu”. A persona que vimos em cima do palco é a persona que Sebastião é. “Evidente que não estou a fazer poses enquanto estou na rua ou nas aulas, mas aquela pessoa é tão verdadeira como eu”.

“Sinto-me fabulosa” por ser a primeira rainha da voguing extravaganza no Porto, diz. “Sinto que finalmente estou a dar voz à minha visão de masculinidade. A comentar esta minha identidade no meio de tantas identidades. Há duas coisas que acendem a minha chama: arte/fotografia, e vogue. E o amor tem que estar em todo o lado”.

E falando em amor, há que sublinhar a presença de DJ Marcelle, holandesa que anda a coleccionar discos desde antes do advento da maioria de nós, e que por isso nos presenteou com um DJ set que foi do ragga ao liquid, com espaço para a batida de chinelo e a sacudidela de anca. Tudo nos conformes. Tudo sassy. Tudo Pérola.

 

 

Texto: Zita Moura
Fotografias: Ana Garcia de Mascarenhas