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#ComoFoi In Skené

#ComoFoi In Skené

Para celebrar o Dia Mundial do Teatro a CVLTO foi ver a peça “Seis personagens à procura de um autor”, no Auditório Municipal de Gondomar, levada a cena pela in skené – Companhia de Teatro, que este ano está de parabéns, porque comemora dez anos de existência.


quando me apresentam seis personagens que não sabem qual é o seu autor, eu fico curiosa, porque na realidade, como é que podemos ter personagens sem um criador?

A encenação é de Fábio Pinto, sendo a peça da autoria de Luigi Pirandello, por isso a partir do seu autor, podemos esperar uma mistura de emoções e confusões. As suas obras são caminhos com grande sentido de humor e originalidade, procurando sempre inverter papéis e pensamentos, ou seja, jogar aquele jogo de criança “O telefone estragado”.

Sim, pode parecer estranho, mas foi essa a sensação que causou, de confusão, de convívio, mas também de um tempo muito em passado, entre gargalhadas e dramas (isto, porque há sempre alguém que não percebe o que se passa e é o melhor retrato desta peça).

Agora em relação à estreia: tinha casa cheia, onde se sentia a excitação e a ansiedade dos presentes, tinha uma equipa sempre de sorriso na cara e desejosos de mostrar ao seu público mais um dos seus projetos carregados de inovação, em relação à cena teatral da zona onde atuam. Isto, porque a in skené já me habituou a bons momentos dramáticos, únicos e cómicos. (Não falasse eu de barriga cheia, por ter o orgulho de já ter feito parte desta família)

Assim, quando me apresentam seis personagens que não sabem qual é o seu autor, eu fico curiosa, porque na realidade, como é que podemos ter personagens sem um criador?

“Gostava de saber quem é aquela gente.”

estávamos a emergir numa realidade recriada de um ensaio para uma peça de teatro, dentro de uma peça de teatro.

É uma das falas do texto, mas também é a sensação que eu e todo o público tivemos quando ainda de luzes acesas, e do burburinho característico das salas de teatro antes do início da peça ainda não ter parado, sentimos quando desatam pessoas a subir a palco e a ocuparem a cena. Mal sabíamos nós que já estávamos a emergir numa realidade recriada de um ensaio para uma peça de teatro, dentro de uma peça de teatro.

Quase como uma representação fidedigna temos uma encenadora atrasada, mas que já entra a dizer mal da regi, porque tem as luzes todas ligadas, um conjunto de atores a dizer mal dela e, no meio deles, uma diva, porque ensaio não é ensaio sem a sua prima-dona. Já aqui temos loucura, desvaneios, caminhos de drama e comédia, no entanto tenham calma, porque esta descrição não é de todo, nem metade, nem um bocadinho a extravagância excelente, conseguida pelos atores a fazer de atores, e, principalmente, pelo Fábio Pinto, o encenador.

foi apresentado todo o processo criativo do interior do teatro, a dualidade entre autor e personagem, a fantasia e a realidade, o que parece ser e o que é.

Como isto tudo já não bastava, o público é confrontado com personagens de outros tempos que emergem do fim da sala, desesperados, prontos para um funeral, à procura de alguém que os possa ajudar. (Depois desta entrada não vos passa pela cabeça a bipolaridade de ações e emoções que esta peça nos traz!)

Todo o processo de ensaio e construção que estava a ser feita, dá uma volta entre 180º e 360º (não dá para perceber e a culpa é de Pirandello), porque o drama é tal que as personagens juram que são personagens e a realidade delas é a que tem de ser representada, mas os atores querem continuar com o ensaio antes que a encenadora entre noutro dos seus discursos filosóficos, que nem ela própria entende.

Resumindo para quem não tem paciência para ler tudo ou para quem é preguiçoso demais para ir cultivar cultura e ver a peça: foi apresentado todo o processo criativo do interior do teatro, a dualidade entre autor e personagem, a fantasia e a realidade, o que parece ser e o que é.

Todas estas etapas fazem parte do jogo de preparação que todos os atores têm de ultrapassar dentro de si, mas também uns com os outros e com o próprio autor/encenador. Contudo, esta peça põe a olho nu este processo todo, porque estas personagens andam à procura de um autor, e sem um olhar atento é bastante possível perdermo-nos no meio dos confrontos e do processo.

vale a pena dar lugar a esta companhia na nossa vida, para não estarmos sempre a levar com as mesmas peças, com os mesmos espaços e com os mesmos encenadores!

Tudo isto sim, porque em “Seis personagens à procura de um autor” assistimos a 2, 3 e 4 cenas a serem pensadas, repensadas e ensaiadas, numa só peça (com direito a mudanças de cenários, luzes e até máquinas de fumo), afinal de contas andamos todos a tentar perceber quem poderá ser (ou ter sido) o autor destas personagens….

Depois destas oposições todas, das gargalhadas e do susto de morte que apanhei no final, a peça pode ser vista no espaço de residência da companhia, o Auditório Municipal de Gondomar, até dia 30 de março, às 21h30, com a exceção de dia 31 de março, em que a peça se irá realizar às 17h30. Todas as reservas e dúvidas podem ser enviadas para inskene@gmail.com.

Fica ainda a nota que de dia 5 a 7 de abril, vai estar em cena a peça “Dilúvio”, que integra outra faceta da companhia, o projeto FORA – Residência Artística. A iniciativa que tem como objetivo de criar novos caminhos e novos laços artísticos em Portugal e no espaço Europeu, por isso vale a pena dar lugar a esta companhia na nossa vida, para não estarmos sempre a levar com as mesmas peças, com os mesmos espaços e com os mesmos encenadores!

Isto, porque a realidade de uma encenadora louca, controladora e de atores que não respeitam o espaço, e não se respeitam a si não espelha de todo o excelente projeto e a admirável companhia que é a In skené.

 

Texto: Maria Chaves Telheiro.