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#QuemÉ a Clara Não

#QuemÉ a Clara Não

Porque "Silva" é demasiado banal, diz a própria. Ai não, ai não... Até que sim. E ficou Clara Não.


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Clara é uma ilustradora portuense que aprendeu a traduzir-se em desenho, e a ajudar o mundo a ser percebido em desenhos também. Foi ainda no seu tempo de licenciatura na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto que ganhou tração nas suas ilustrações. Identifica como principais referências a Joana Estrela e a Mariana Miserável, e a nível internacional o David Shrigley e o André da Loba. Também assinala como parte importante do seu trajecto a investigação que fez com livros infantis – “comecei a comprar imensos, imensos, imensos livros infantis, chegava a ser aos três de cada vez, uma coisa estúpida…”.

Num dado momento da vida, deu de caras com um desgosto, e sem saber o que fazer – e sabendo que ninguém poderia fazer nada por ela -, começou a traduzir essa zanga com o mundo: “Comecei a desenhar e a escrever em inglês nuns caderninhos, a fazer umas ilustrações, sempre a mandar vir, até que enchi seis”. Estes seis “caderninhos”, como lhes chama, serão editados muito brevemente, no final do seu Mestrado, e a primeira zine que publicou teve origem exactamente nesta pequena forma de terapia que Clara encontrou. A partir do momento que editou a zine deixou de estar tão zangada: “A partir daí já não estava chateada, a última página do caderno sou eu a desculpar-me. Só que a partir disto criei um motor… ou seja; eu já não preciso de estar chateada, eu vou buscar as memórias daquilo que me chateia e consigo fazer isto.”

Entretanto decidiu deixar de escrever em inglês, porque percebeu que a sua forma de traduzir o mundo em ilustrações era demasiado espontânea para permitir que não fosse escrita na sua língua natal.

“E depois estas ilustrações são assim, são muito rápidas de fazer. Normalmente faço-as com marcador, por vezes com tinta-da-china se a tiver à mão. A minha ideia é ser o mais honesta possível. Eu assim sei que não tenho aquele tempo de pensar… Tempo para alterar, para não ser tão agressivo ou ser mais bonitinho.”

Mas nem todo o seu trabalho serve para ilustrar situações que a chateiam. Depois de investigar sobre contos infantis, escreveu o seu primeiro, sobre um elefante cor-de-rosa. “Esta história é sobre um elefante cor-de-rosa que olhou o horizonte e viu a árvore mais pequenina do horizonte e decidiu que queria chegar até ela. Então correu, correu, correu. Mas quando lá chegou percebeu que a árvore era muito muito muito grande. E voltou a olhar para o horizonte e apercebeu-se que ainda não tinha chegado, e viu e outra árvore pequenina. Então correu, correu, correu.” E tanto correu o elefante que Clara apercebeu-se do quanto se queria aproximar da árvore pequenina, que eram os contos e as ilustrações. Percebeu que as histórias que escrevia e publicava online estavam a ter adesão e leitores regulares, especialmente quando a prima a informou de que costumava ler essas historinhas ao filho bebé.

Entretanto uma amiga de Clara é hospitalizada, e para ajudar a tranquilizar a amiga, Clara começa a escrever-lhe histórias que a serenassem e a deixassem bem-disposta. A repentina proximidade ao Hospital de São João levou a que Clara levasse uma ideia nova a um Professor de Belas Artes: “Professor, eu quero ir contar estas histórias ao Hospital de S.João e as crianças ilustram.”

 

“Por exemplo, aqui, vemos lápis de cor e marcador, escolhi-os para que os miúdos pudessem ter noção das diferenças na aderência ao papel… Fizemos outro, com pastel de óleo e lápis de cera, mais uma vez para poderem ver as diferenças, um é mais forte do que o outro… Com o pastél de óleo, podem misturar com o dedo, com as tintas também, usámos tintas que crescem… Fizemos trabalhos com decalque, para poderem sentir as texturas, com carimbo… Também trabalharam com carvão vegetal e carvão sintético para aprenderem a diferença.”

Os desenhos do Joãozinho e o umbigo do artista

As burocracias levaram meio ano até estarem completas e permitirem a Clara arrancar com o seu projecto junto das crianças do São João. Todas as quartas-feiras durante um semestre Clara lia uma história às crianças e dotava-as de ferramentas e técnicas para a ilustrarem. Vai folheando algumas das ilustrações que guardou ao longo desses meses, e enumera as técnicas: “Por exemplo, aqui, vemos lápis de cor e marcador, escolhi-os para que os miúdos pudessem ter noção das diferenças na aderência ao papel… Fizemos outro, com pastel de óleo e lápis de cera, mais uma vez para poderem ver as diferenças, um é mais forte do que o outro… Com o pastél de óleo, podem misturar com o dedo, com as tintas também, usámos tintas que crescem… Fizemos trabalhos com decalque, para poderem sentir as texturas, com carimbo… Também trabalharam com carvão vegetal e carvão sintético para aprenderem a diferença.”
O trabalho que desenvolveu com aquelas crianças permitiu-lhe perceber uma coisa importante acerca dos profissionais e voluntários que todos os dias estão na Pediatria do Hospital de São João: “Enquanto que eu vou lá lidar com a parte da criança, vou lá lembrá-las de que são crianças antes de tudo, eles é que levam com aquilo que está ligado à doença.”. Ficou amiga de muita gente que lá conheceu, desde crianças internadas até às educadoras. Irá converter as ilustrações que foi recolhendo numa pequena publicação que irá vender, e cuja receita reverterá totalmente a favor da pediatria do hospital, que está há muito tempo a funcionar em contentores pela falta de fundos para realização das obras há muito prometidas. Mas este também foi um processo importante na consciencialização de Clara relativamente ao seu trabalho artístico:
“Senti que conectei aquelas que são as motivações externas com as motivações internas. Ou seja, acho que o artista ainda continua a trabalhar um bocado para o seu umbigo. E o que eu tentei dizer foi que o meu trabalho pessoal existe, e eu não vou deixar de o fazer nem ele vai deixar de existir. Agora, se eu deixar de fazer isto, neste momento, também ninguém vai estar a fazê-lo. Tentei sair um bocado do meu umbigo, em vez de estar a fazer o meu trabalho só para mim, embora cada vez mais as pessoas conheçam o meu trabalho e se identifiquem com ele, estas crianças precisam muito mais. Precisam. Este nem é um projecto que eu tenha ainda mostrado muito cá fora, até porque me faz muita impressão quando as pessoas dizem que vão fazer determinado projecto ou trabalho, mas na realidade não o fazem realmente. Eu quis primeiro fazer. Sair desse umbigo de artista.”

A escrita e o processo criativo como terapia

Clara fala de “um umbigo próprio e um umbigo alargado”: falta vontade de ir à luta e faltam incentivos. Descobriu os incentivos que precisava em si mesma, quando percebeu que as ferramentas que precisava para se auto-compreender já as tinha, e trabalhou-as pela necessidade que tinha de se conhecer e exprimir. E, já que pela sua timidez, tinha dificuldade em expressar-se a alguém, e pensou: “Se era para mostrar o que sinto a alguém, mais valia mostrar a todos de uma vez. E comecei a escrever num caderninho que está sempre comigo, comecei a escrever na rua… Foi uma forma de libertação e de terapia.”
Agora quer ganhar alguma distância desses tais caderninhos que irá editar em breve, e investir na banda desenhada (tanto bordada, como escrita), e na performance escrita, uma nova forma de expressão que descobriu através da investigação do acto de escrever.

O mesmo método que foi utilizado para ensinar Clara a escrever com a mão direita, foi o que ela usou para aprender a escrever com a mão esquerda, curiosamente utilizando um livro da Primeira Classe, da época do salazarismo – “A ideia foi mesmo fazê-lo rebolar na covinha”, brinca. Quando escreve, Clara entra numa espécie de transe, e daí ser importante para ela construir uma performance de escrita, mais do que apresentar o produto escrito ao espectador: “A questão da escrita é que por muito que visses as linhas em que aprendi a escrever, não conseguias ter noção da acção da escrita, e foi aí que se tornou importante a acção da performance, para mostrar às pessoas como é que eu escrevia. Revesti as paredes com papel, e comecei a escrever com e sem escadote. Mas só sei que tenho que parar quando começo a sentir tonturas.”
Clara tem exposições marcadas para este mês de Outubro e para Janeiro próximo, mas o seu maior objectivo neste momento é construir uma “espécie de residência e ocupá-la ao máximo com a escrita”. Sejam histórias de elefantes que correm e correm e correm, sejam histórias de homens malcriados que dizem barbaridades pelas janelas dos carros, sejam  histórias para jovens hospitalizadas que precisam de se rir.

Clara tem muito para dizer, e o que ela diz faz parte de #QuemÉ a Clara Não.