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#OndeEstá o Cinco Sessenta

#OndeEstá o Cinco Sessenta

Um estúdio de impressão e serigrafia com um pequeno colectivo de artistas e curiosos.


O Cinco Sessenta e as suas fundadoras, Diana Trindade e Inês Bessa, estão na Rua do Almada nº314, a paredes meias com António Bessa, mestre de pintura e pai de Inês. Descrevem-se como “um estúdio de impressão e serigrafia com um pequeno colectivo de artistas e curiosos, que tem como objectivo a edição de toda e qualquer obra em pequenas e médias quantidades, perfeito para edições limitadas ou de baixa tiragem”. Estamos a hora e meia do princípio de um workshop de transferência de imagem, e Inês e Diana sentam-se à mesa com a CVLTO para falarem sobre o seu atelier e o seu projecto. Explica Inês que a ideia do Cinco Sessenta surge de uma conversa casual com o seu namorado, Manuel, numas férias na Ericeira, quando se interrogaram sobre o porquê de haver tanto consumo de t-shirts feitas a granel com impressões genéricas.

“Na altura começámos a ver algumas fábricas de têxtil”, explica Inês, para tentar dar azo a uma ideia de trabalhar com artistas e designers para fazer t-shirts menos genéricas, “mas começámos a ver que não era suportável para o que nós tínhamos.”

Então a ideia ficou em incubadora durante mais ou menos três anos, até chegarem ao ponto em que se sentiram financeiramente confortáveis para fazer os investimentos iniciais, e em que Inês já tinha alguma formação em impressão. Juntaram-se com o gabinete de design Black Unicorns para desenharem o logótipo da Cinco Sessenta – que é “o início do código de barras de qualquer produto português”. Arrancaram com a ideia de fazerem “t-shirts ou edições de artista”.

“Foi também para tentar combater um mercado que andava muito à volta das grandes quantidades, ou seja; qualquer coisa que passasse entre as 100, 150 unidades já não avançava… ou ficava caríssimo, ou então as empresas não faziam, têm quantidades mínimas para aceitar isso.”

Se criarmos a oferta, também aumentamos a procura. Mas é claro que é uma coisa muito gradual. Os preços que colocamos, apesar de serem muito abaixo do mercado, continuam a ser altos para artistas, portanto são sempre edições dez, quinze, vinte, nunca ultrapassa isso.

Durante um ano foram trabalhando com artistas e designers, mas “não era o suficiente para aguentarem o investimento” que tinham feito. Houve alguma adesão, na altura, mas não muita, diz Inês, porque andavam os artistas continuavam a trabalhar mais ou menos pro bono como o Cinco sessenta.

“Havia uma falha no mercado, de não haver uma coisa mais exclusiva, então eu lembrei-me de convidar artistas e dar a conhecer o cinco sessenta de outra forma, ou seja, em vez de nós tentarmos sem nome nenhum tentar chegar ao público só por publicidade, feiras, etc, se calhar começamos a chamar o público para vir aprender.”

Um atelier que é escola e espaço aberto

E é aí que entra Diana. Não foi um processo “comum”, o de começarem a trabalhar juntas.

Ambas eram estudantes de Mestrado na FBAUP, com a mesma orientadora, que recomendou a Inês que lesse a tese de Diana, sobre serigrafia, disponível na biblioteca. E na sequência disso, Inês procurou Diana: “Eu trabalho em serigrafia, tenho um estúdio na Rua do Almada, queres vir trabalhar comigo?”. E ficou. Só alguns meses depois é que realmente se avançou no processo de começarem a organizar workshops, e o primeiro teve muito impacto, ao ponto de terem de abrir duas turmas. Começaram a desenrolar-se os workshops, com pessoas convidadas para irem trabalhar com elas no Cinco Sessenta. A composição da turma depende muito da temática do workshop e da época do ano, e tinham desde idosos da Universidade Sénior, a “designers que estão fartos de mexer em computadores e querem sujar as mãos”, a arquitectos, a alunos de secundário. Para divulgarem as técnicas que ensinavam nos workshops começaram a “fazer pequenos vídeos, nada profissional mesmo, e trabalhar e para que as pessoas percebessem o que é que é, fazer eventos só para explicar aquilo que se pode fazer”, explica Diana. Ambas têm a ambição de que o Cinco Sessenta comece a funcionar mais como uma escola, para que ficassem libertas para continuarem a investir nas edições com artistas. Explica Inês: “O que nós queríamos era que isto funcionasse como uma escola, quase por si só. Ou seja, que nós não tivéssemos que dedicar tanto tempo e pudessemos abrir, porque se formos só nós as duas e o Manel a dedicarmo-nos aos workshops e às edições… O que queremos realmente é continuar com isto como uma escola, não querendo de deixar de dar workshops pontualmente, nomeadamente em serigrafia porque também não há muita gente a dar.”

As duas jovens artistas notam que tem havido um decréscimo de inscrições nos workshops, mas isso não as preocupa demasiado, porque sabem que há oscilações que vão por fases. Inês diz que, das duas uma: “ ou é uma fase mesmo em que as pessoas não querem estar a gastar dinheiro por um motivo ou outro, ou então é porque nós criámos um padrão sem querer de abertura de formações todos os meses”.
Então as formações vão deixar de acontecer todos os meses, e passarão a ser mais pontuais, até para poderem ter mais tempo para dedicar às edições.
A esse nível têm feito alguns trabalhos, nomeadamente com o street artist portuense Hazul. Mas também querem abrir as portas do Cinco Sessenta e permitir a outros artistas que explorem o espaço.

Criar também implica sujar

“Não existem muitos sítios nos quais seja permitido sujar, basicamente. Há muitos ateliers que têm muito aquilo a que chamo “ambiente de escritório” ou “ambiente de farmácia” (risos). Uma coisa bonita. Tudo muito branco”, explica Diana, assegurando que quando é serigrafia que se faz que vai haver sujeira, garantidamente. “Isso é uma das coisas que nos perguntam, quais vão ser as condições. Se sujar suja, limpa-se. Se não sair, paciência… Sei lá, prefiro comprar mesas novas quando estas estiverem intragáveis, do que andar a castrar as pessoas.”

Para além das restrições que a maioria dos ateliers impõem, também há uma limitação na capacidade de experimentação nas faculdade: “Há parâmetros a cumprir, aqui não, aqui trata-se de se ensinar algo ao público que também lhes permita divertirem-se, não estamos aqui para dar notas”, explica Diana. Quanto ao momento actual no panorama artístico portuense, nenhuma das duas se mostra particularmente apreensiva: “Podia estar muito pior. Mas também podia estar muito melhor.” Inês considera que “há mais iniciativa, que as pessoas começaram a ser mais autónomas”. “Acho que antigamente o artista ficava muito naquele plano de backstage, e de que a obra é que tem de falar por ele. E acho que hoje em dia, principalmente por causa das redes sociais, os artistas começaram a entrar numa de investir neles mesmos e procurarem eles as oportunidades.” Diana explica que elas sentiram muito na pele uma “lacuna de mercado” que identificaram, e que quer evitar que outros sintam o que elas sentiram, numa altura em que ficaram “um pouco entre a espada e a parede”.

“Inicialmente tínhamos espaços na Faculdade de Belas Artes, e a dado momento determinada legislação ditou que já não se podiam utilizar as oficinas da faculdade livremente, e apenas em determinados horários, sendo que os alunos teriam de trazer todo o material. E quando digo “todo o material” é mesmo todo o material, desde tintas a quadros, o que implica ter de comprar mesmo quadros, que é uma coisa que eu acho ridícula. Acaba-se por ter de comprar tudo. Quer dizer, acabas por utilizar apenas luz e água. Nós queríamos que as pessoas conseguissem fazer alguma coisa. Isto é algo que queremos continuar, mas não é de todo para ter o maior lucro ou enriquecer disto.”

O Cinco Sessenta está numa artéria principal da cidade do Porto, cada dia mais cosmopolita mas sob uma crescente pressão imobiliária. Isso não as apoquenta muito, mas sabem que se tiverem de abandonar o espaço que partilham com o pai de Inês que vão ter de recomeçar do zero. A máquina leva três ou quatro anos até começar a funcionar sozinha, e neste momento já começam a ver os frutos do trabalho e da divulgação que têm feito.

É aqui #OndeEstá o Cinco Sessenta.