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#ComoFoi BORF e Take Back

#ComoFoi BORF e Take Back

Isto só vem provar que o hardcore continua vivo e com cartas para dar.


BORF + Take Back

Corrosion Bookings
12 de Janeiro
Carpe Diem, Santo Tirso

Foi com a casa composta que o Carpe Diem, em Santo Tirso, recebeu os BORF e os Take Back, num concerto organizado pela Corrosion Bookings a 12 de Janeiro. Apesar do atraso de uma hora para arrancar a missa, o público não desmoralizou para ver o trio de powerviolence portuense e o hardcore de São João da Madeira.

Quando se pensa em powerviolence e hardcore, a primeira sonoridade que surge à ideia não é funk.

Mas foi com funk que os BORF arrancaram o concerto. Quiçá para desconcertar o público – e funcionou, facto é. Cortam o funk com a mesma velocidade com que arrancam com os grunhidos e guitarradas, entram a matar, de goela e moshpit bem aberto.

BORF é powerviolence como se quer: de mau gosto, rápido, com um baixo badalhoco, guitarra dissonante e padeirada valente na bateria. Os breakdowns que entregam saem da comum batida do hardcore moderno, quiçá pela influência que se ouve de projectos de grindviolence, como Bridge – mas um nadinha menos visceral.

E onde ainda se ouve a influência de alguns projectos de grind, também se ouvem as raízes do crust à moda antiga.

Com um baixo que soa a trovoada, riffs de guitarra malvados e um vocalista com laivos animalescos – seja na voz, seja na raiva com que amarra quem está na sua frontline para obrigar a um moshpit – BORF é hardcore divertido, sem deixar de ser nojento.

A particularidade do powerviolence é que nunca é bem claro o que se está a ouvir – terá sido um contratempo?, terá sido uma quebra intencional?, terá sido um prego?, terá sido javardeira deliberada? – mas, com mais ou menos nitidez, certo é que os BORF conseguem provocar uma tensão tal no público que há momentos de crescendo em que se sente a electricidade a estalar entre os punhos cerrados e os braços que se preparam para mais uma carga de lenha no mosh.

Depois da nojeira do grindviolence de BORF, sobem os Take Back, de São João da Madeira, com o seu hardcore bruto e os seus breakdowns violentos, e anunciam-se de forma a que se saiba o que vem por aí abaixo:

“heavyweight champions of hardcore”

Assim que o concerto arranca, o moshpit expande de tal forma que mesmo quem se punha à retaguarda do público viu-se obrigado a recuar.

O vocalista Rui Andrade não demonstra dificuldade em oscilar entre um registo mais limpo e mais gritado, com uma cadência que parece prestar homenagem a TERROR. De facto, Take Back é leal às raízes que juram defender no seu álbum, com uma sonoridade a par e par com muito do hardcore nova-iorquino dos anos 90.

Há espaço no som dos Take Back para todos os elementos da banda – tudo se ouve com nitidez, tudo tem o seu espaço – o que nem sempre se pode elogiar em muitos projectos de hardcore contemporâneo.

O moshpit está intenso, carregado de energia, e todos os elementos de Take Back estão a corresponder à energia do público.

Ainda que nalguns momentos as explosões no pit tenham raiado o incontrolável, o crowdkill não foi o mais violento que já se viu em concertos deste género. O que se vê, e prima pela raridade da visão hoje em dia, são várias mãos pintadas com um X preto, que a cada certo tempo se veêm agitar em punho cerrado. Isto só vem provar que o hardcore continua vivo e com cartas para dar.

crowdsurf, há copos a partir, parte do público atropela-se para amarrar o vocalista e partilhar o microfone com ele para se cantar em uníssono (ou quase) os refrões do recém-lançado álbum da banda.

Afinal, é isto o que se espera de um concerto de hardcore, certo?

 

Texto: Zita Moura
Fotografias: Ana Garcia de Mascarenhas