Menu & Search
#QuemÉ Aurora Pinho

#QuemÉ Aurora Pinho

Na mitologia romana, Aurora é recordada como a deusa do alvorecer. Renova-se todos os dias, e voa pelos céus, anunciando a chegada da manhã. Na realidade dos mortais, também existe uma Aurora que alvorece todos os dias. Não tem a capacidade de voar, mas a dança permite-lhe roçar a liberdade que tanto se esforça por atingir. Através da performance, conta a sua história e anuncia a chegada de um novo ciclo.


 

Alter-ego” Vs. Identidade

Corpo de Flávio, coração de Aurora, assim nasceu a artista trans que hoje, com 27 anos, trava uma batalha em cima dos palcos. Momentos antes de mais uma apresentação, no passado dia 19 de Janeiro, no Rivoli, recorda orgulhosamente a entrada no universo das artes performativas em 2013, quando descobriu aquela que iria ser a linguagem artística dominante: “Eu comecei a fazer música, muito no início do processo e sinto que foi o que, em parte, me salvou.

Aurora descreve as atuações como “um jogo entre público e performance”, conduzidas pela improvisação e o próprio ambiente. Não descorando os sons cativantes e o distinto desempenho da protagonista, mais do que isso, os espetáculos simbolizam a emancipação de uma mulher que descobriu na arte “um palco onde se pode ser o que se quiser”.

“Também era uma forma de testar a receção do público e, performance para performance, fui afirmando que aquilo não era propriamente um alter-ego mas a ânsia de ser a Aurora”, conta à CVLTO.

A voz é uma arma, e a arte um campo de guerra

No camarim, o frenesi que se faz sentir é inegável, mas Aurora mantém o rosto sereno.

“Sendo transexual, ter voz já é um ato político gigante, porque costumamos ser abafadas, ou pelo menos tentam fazê-lo”, desabafa.

Para a artista, a responsabilidade aumenta no momento em que adquire a capacidade de alertar as pessoas para várias problemáticas, através do seu trabalho. A objetificação feminina é uma delas. “É um tema que eu abordo imenso e não tem apenas a ver com o facto de eu ser transexual”, explica. “Incomoda-me toda esta objetificação que está intrínseca há anos, assim como deve incomodar qualquer outra mulher”. Aurora confessa já ter sentido na pele “toda essa brutalidade”, e o facto de conseguir libertar as emoções em palco deixa-a mais otimista.

“Sinto mesmo que é um ato de guerra, uma arma”, conta.

“Acho que é super importante haver um rompimento de todas as normativas e do campo dominante da heterossexualidade, do machismo, etc.”.

Crowdfunding

Há três anos, Aurora Pinho iniciou um tratamento hormonal que iria mudar a sua vida para sempre, mas o sonho que mantém vivo está longe de ser concretizado. A cirurgia de redesignação sexual no hospital público, que a arrasta por tempo indeterminado numa lista de espera, deixou de ser uma opção face às possibilidades do privado, mas nem sempre a escolha mais rápida implica um valor mais acessível.

“Tive de arcar com todo o cachê que é necessário para fazer a operação” conta, referindo-se a um total de nove mil euros. Neste sentido, surgiu a campanha de crowdfunding. “Juntei uma pequena equipa de amigos e achámos que era a única solução”. As adversidades continuam a surgir, mas três mil euros já foram angariados, e Aurora prevê um ano mais otimista “para terminar todo este pesadelo”.

 

Vencida a batalha, vai ajudar quem precisa

O olhar de Aurora viaja, quando recorda as conturbações que sofreu desde o início do tratamento, que descreve como “um processo muito solitário”. “Os meus amigos ficavam com o coração nas mãos quando surtia algum efeito secundário, e eu não achava que fosse saudável, então fechava-me e depois quando me sentia melhor voltava a aparecer”, conta. Para além das alterações físicas evidentes, tais como o crescimento dos seios, a perda e o aumento de peso, “havia alturas em que acordava e começava a chorar imediatamente, sem compreender a razão”. Quando se olhava no espelho, admite, “não conhecia o próprio reflexo”. “É uma turbulência gigante lidar com aquilo diariamente, mas vai acalmando, quando se começa a reconhecer e a abraçar aquilo que se vê”.

Após a travessia, Aurora não pretende baixar os braços e assume-se mais preparada para falar.

Não é só por mim, é por todos nós”, defende. “Um dia, se meter uma criança neste mundo caótico, como é que eu posso acalmá-lo para a receção do meu filho ou filha, sendo uma mãe transexual?”. A eventualidade de um filho passar pela mesma situação também preocupa a performer, que destaca a elevada taxa de suicídios e homicídios, e acredita na importância de “criar uma espécie de rede que esteja sempre a passar energia, seja através de um abraço ou uma simples conversa”.

“Muitos jovens que me procuram depois dos concertos acham que o suicídio é uma solução ou não têm força para iniciar o tratamento hormonal”, conta.

No momento, Aurora hesita por breves segundos, antes de prosseguir. “Já que tenho voz, depois disto tudo vou estar mais disponível para ajudar outras pessoas, e gostava de criar uma espécie de associação para transexuais”, confessa a artista, de sorriso otimista. “Quando for operada, pode parecer que o meu problema está resolvido mas não está, no que diz respeito ao grande panorama da transexualidade em Portugal”.

 

Texto por Sofia Marvão.
Fotografias por Zita Bacelar Moura.

1 Comment

  1. 4 semanas ago

    […] da música alinhados, que o Impulso deixa para trás as promessas da música nacional: entre Aurora Pinho, João Pais Filipe, Dakoi, Nádia Schilling, Iguana Garcia, Sallim, Unsafe Space Garden, Colónia […]