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#QuemPensa é Sérgio Morais: “Até quando?”

#QuemPensa é Sérgio Morais: “Até quando?”

Saudosos são os que já o fazem, mas falar-se-ia tão alto se não fosse cada um para o seu canto.


Esta é a pergunta que paira sobre a minha cabeça. Isto vai andar assim, na interminável viagem pela maionese, até quando?

A maionese não traz nada de bom e o cheiro acaba por ser nauseabundo. Mas é disto que gostamos, aparentemente: uma eterna neutralidade, um infindável cuidado com as politiquices e os politicamente corretos. Já era tempo de um ressurgimento do “que se foda o FMI”, do “Não, não se fala mal / português em Portugal / não se diz caralho / a torto e a direito / ou vai sempre a direito / ou só se diz quando / a coisa dá para o torto ”, com a importância e estatuto telúrico que deve ter.

Será este o momento ideal para fugir ao problema geral contando histórias da carochinha ou para desvendar as coisas como elas são?

Já era tempo de se olhar para o realismo sujo do Bukowski não como patifarias ditas por um velho, mas como a realidade proferida da forma mais crua; de se olhar para uma beat generation como seres corajosos e uma legítima contra-cultura, e não mal-criados e boémios com canetas na mão. Quebrem-se os standards, se é que eles existem.

Que se crie com o coração, com o sangue a borbulhar.

Atire-se tinta para os passeios, escreva-se na genitália, cante-se mal e porcamente, mas por favor, qualquer coisa com vontade e voz reivindicativa e, acima de tudo, verdadeira; e rapidinho que se faz tarde. Numa altura em que quase toda a barreira foi abolida e onde há um palco e plataforma global para a divulgação de o que quer que seja, gostava de ver mais portugueses a falarem da porcaria da realidade, sem polir, sem limpar nada – e a querer verdadeiramente que isto mude.

Com franqueza questionem-se: será este o momento ideal para fugir ao problema geral contando histórias da carochinha ou para desvendar as coisas como elas são? Será este o momento para embelezar o mundo?

Ai que é tão linda a vida; tudo está tão bem”, dizem enquanto assistem ao desenrolar dos acontecimentos sem a menor preocupação. A idade da indiferença mascarada de interesse mínimo. De que é que importa, não é? Até quando é que a nossa “contra-cultura” se vai deixar ficar? Atividades masturbatórias são sempre interessantes, eu sei, mas quando é que passam de um olhar prolongado para o umbigo para um “Ok, não, puta que te pariu, ouve o que eu tenho para te dizer; eu também tenho direito de falar”?

Saudosos são os que já o fazem, mas falar-se-ia tão alto se não fosse cada um para o seu canto.

Mas não; há uma insistência na individualidade (em grande parte, não na totalidade). “Somos todos um floco de neve, todos diferentes”. Que bonito. E assim, em vez de se escalar uma montanha em conjunto, anda-se a dar pancada a quem vem ao lado porque se quer chegar primeiro. E quando lá se chega não se acaba a pancadaria: é a lei do mais forte. Do mais forte em quê, exatamente? Leva-se o dinheirinho para a cova? Estamos todos cientes do pouco apoio que a maioria da comunidade artística tem neste país, correto? Então para quê dificultar ainda mais?

As minhas pesquisas pelo mundo da internet (poço tanto de merda como de diamante) levou-me a uma carta do Sol LeWitt à Eva Hesse, escrita em meados de 1965 numa altura em que a artista se encontrava num momento de bloqueio criativo. Recomendo vivamente a leitura dessa carta. Chamou-me a atenção por variadíssimos motivos, porém apenas uma frase me vem à memória recorrentemente durante a escrita deste pequeno texto: “make your own uncool”. Atirem-se aos lobos. Ajudem-se.

Até quando vamos deixar coisas por dizer?

Perdoem-me o desabafo rude. Parece descabido, desconexo, mas não é, eu prometo. Os dias custam a passar. Os dias custam tanto a passar. Foda-se. Faço minhas as palavras de um grande senhor do Porto: “mãe / a vida é esta merda / dela só o cheiro se herda / troca-se sonhos por qualquer porcaria / canta de novo a canção da lua / enquanto não chega o dia”. Manel, tens razão, mas gostava tanto que não tivesses. Talvez um dia consigamos, todos, deixar de trocar sonhos por qualquer outra tarouquice.

 

Sérgio Morais.

 

Uma brutalidade – João Narciso