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#ComoFoi a Apócrifa – PLEC

#ComoFoi a Apócrifa – PLEC

"Penso a intervenção artística como uma intervenção para um todo e para um outro que está fora"


O s primeiros dias de frio cortante do Inverno que se aproxima trouxeram consigo a Apócrifa. Mas ao abrigo das paredes forradas de histórias da Livraria Flâneur, o gelo do fim de Outubro teve de se resignar às vidraças que vibravam com um Processo Literário em Curso (PLEC). Leia-se: o número oito da revista Apócrifa – PLEC veio apresentar-se ao Porto, a 28 de Outubro.

A Flâneur tem uma discreta montra numa rua paralela à caótica Avenida da Boavista, e é das poucas livrarias independentes que vai sobrevivendo numa cidade cada vez mais estrangulada pelos processos de gentrificação. Fátima Vieira sublinha a importância de espaços como a Flâneur, quando descreve a como “uma verdadeira livraria independente”, com “verdadeiros livreiros”, que segue na senda dos “espaços de cultura e subversão” que historicamente são aqueles espaços.Quatro anos, oito edições e uma antologia depois, Vasco Macedo – editor da Apócrifa – senta-se à mesa com Fátima Vieira, Vice-Reitora para a Cultura da Universidade do Porto, que vem apresentar a revista, e com João Castro, actor residente do elenco do Teatro Nacional de São João, que vem lê-la.

Faço o que faço porque acredito nas coisas que faço

E a par da importância de “espaços de cultura e subversão”, estão os projectos como a Apócrifa, defende a Vice-Reitora, e mais ainda os que prevalecem: “há muito poucos que cheguem à oitava edição”. Fátima Vieira faz uma sucinta explicação do que é a Apócrifa:

Surge do trabalho de “um colectivo pré-contemporâneo”, que Vasco Macedo integrava. Uma revista literária que é uma “afirmação da centralidade da palavra poética”, que “recorre ao discurso das artes plásticas” e a que “interessa criar uma narrativa” através da fusão destas linguagens.

A Apócrifa – PLEC está imbuída de um certo sentimento de missão de Vasco Macedo, que disse durante o debate com a plateia que assistiu à apresentação e leitura da revista: “faço o que faço porque acredito nas coisas que faço”. E já antes Fátima Vieira tinha sublinhado: “o editor é o interlocutor crítico dos poetas que edita” e “grandes autores têm sempre grandes editores por trás”.

 

A poesia não é para as redomas

Emparelhando o trabalho poético de vários autores e de jovens artistas plásticos, Vasco Macedo obriga a “pensar o texto e o próprio objecto em si”, não limitando a experiência da Apócrifa à leitura dos textos escritos por “poetas jovens e vozes novas”.

Em conversa com a CVLTO, o mestrando em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas conta como a experiência da Apócrifa nasce de encontros informais na sua casa, em meados de 2013. Desse colectivo que partilhava algumas sensibilidades no que à poesia respeita, surge a ideia de construir uma revista. Daí a meio ano, em Janeiro de 2014, é lançado #1 da Apócrifa.

Todas as anteriores edições da Apócrifa esgotaram e exigiram novas tiragens.

“Eu penso na poesia em particular como uma coisa que não quero que esteja fechada dentro duma determinada redoma, ou de um determinado circuito, e penso a intervenção artística como uma intervenção para um todo e para um outro que está fora, e não para um que está para dentro. Aliás a própria ideia da revista é isso, mesmo aqueles encontros que nós tínhamos eram uma coisa para dentro. Não é isso o que eu sinto que deva fazer.”

Este oitavo número agora lançado é o que conta com maior tiragem – 300 exemplares, cada um a custar dois euros. Vasco explica que as edições anteriores tinham tiragens mais pequenas, de 100 ou 120 exemplares, mas que acabavam por esgotar e exigir segundas ou terceiras tiragens. O facto da revista ter uma vertente “não-lucrativa”, graceja o editor, permite que se peça um preço mais reduzido por ela. A par da procura que surge naturalmente, também há muito quem entre em contacto no sentido de adquirir todas as edições anteriores numa perspectiva de coleccionismo.

“Porque muitas vezes as revistas literárias são bastante mais caras, e algumas pessoas não se sentem que valha a pena investirem tanto do seu orçamento nisso. Por isso acho que também há um factor importante, que é o facto da revista ser extremamente acessível.”

Esta oitava edição da Apócrifa tinha metade dos seus textos entregue a uma temática perigosa: Trump. Mas não que se leia o perigo nas palavras destes jovens poetas, lê-se antes a acidez, e a demora na maturação dos textos.

De deuses a poços, jardins e orgasmos, a palavra tem rédea solta. E é assim que ela se quer, e que Vasco quer mantê-la.

O amanhã o futuro dirá. O editor e timoneiro da Apócrifa planeia fazer duas edições anuais, apontando os números 9 e 10 para o ano de 2019, e fazer da edição 12 uma antologia como fez com o número 6. Para cada cinco edições normais, uma antologia delas nascerá. Reconhece, no entanto, que este processo tem uma dinâmica muito própria, inclusivé para permitir a maturação dos próprios textos, portanto será sempre um desenvolvimento orgânico – dos textos, do objecto, da imagem.

A apresentação do número 8 da Apócrifa – PLEC em Lisboa terá lugar no próximo dia 25 de Novembro em Anjos70, na rua Regueirão dos Anjos, nº70.