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#OndeEstá o Amor de Marta

#OndeEstá o Amor de Marta

Estive à conversa com a Marta, capitã do projecto Amor de Marta, que vem no encadeamento de um trabalho plástico que começou a ser desenvolvido ainda em contexto académico. A Marta estudou Pintura em Belas Artes, onde fomos colegas tanto no contexto de Licenciatura como em Mestrado. Já na altura, os quadros da Marta provocavam furor e reacções que iam do choque à extrema curiosidade por ”aquela rapariga de pintura que pinta broches quase em hiper realismo”.

A malta do primeiro ano subia ao atelier escavacado então pertencente a esse terceiro ano de pintura, e espreitava por entre desajeitados montículos de frascos de terebentina, papéis, madeiras gordurentas e cavaletes a cair aos bocados os trabalhos dos alunos mais velhos. O trabalho da Marta foi um dos primeiros trabalhos de pintura que vi de colegas aquando da minha chegada a Belas Artes, e um dos que me fez perceber que estas coisas eram possíveis, que tinha vindo estudar para o sítio certo. Anos mais tarde, esta percepção inocente ganharia outros contornos. Ainda assim, há imagens que perduram.

Nota: Esta entrevista teve lugar num pequeno snack-bar de rua no centro do Porto, de menu ainda pouco inflacionado. Além de ter sido extremamente difícil de encontrar um local cujo café fosse de preço pelo menos abaixo de escandaloso, escassos minutos após a nossa chegada começaria a soar o alarme da discoteca do número ao lado, alarme este que se estenderia aos gritos até ao fim da nossa entrevista. A malfadada polícia chegaria pouco tempo depois, coçaria a cabeça e acenaria que nem dois putos acabrunhados perante a gritaria das arquetipais mulheres do Norte, donas do snack-bar em que nos sentámos, que berrariam juntamente com o alarme contra o barulho que já basta à noite, dos turistas bêbados e da música “de boate” agora também durante o dia.

Isto posto, quaisquer caralhadas doravante nesta entrevista serão justificadas pela dificílima transcrição do áudio gravado no dia. Também odeias gentrificação? Se sim, já conheces o Morto Ponto? Se não, a Marta terá todo o prazer a enviar-te direitinho para o caralho que te foda.


E, então, onde está o Amor de Marta?

CVLTO: Tens sentido alguma falta de aceitação por parte do público em geral perante o tipo de trabalho que desenvolves?

Marta: A minha formação é em Belas Artes, e a minha natureza está de facto na Pintura. As questões associadas à aceitação do meu trabalho sempre me interessaram enquanto artista plástica e especialmente no contexto do meu trabalho de Pintura. Honestamente hoje em dia estou-me a cagar para isso. Isto tem muito a ver com a pintura ser um processo lento e que envolve outro tipo de investimentos e esforço que nesta fase enquanto artista pobre me impedem de corresponder às minhas próprias expectativas. E a ilustração nasceu aqui como um acompanhamento do trabalho que fazia em pintura, mas também como um trabalho mais rápido e de fácil propagação. Não no sentido de ser mais aceitável ou não por parte do público, até porque se fosse por aí eu teria que mudar imensa coisa naquilo que faço.

Agora, que me interessa criar um papel de participação do público no meu trabalho e que deve ser o observador a interpretar aquela que é a mensagem que eu lhe dou – e que dou sempre com um intuito pornográfico ou de “piada” – claro que me interessa. E isto faz muito parte da nossa cultura portuguesa, tanto que gosto muito de utilizar sempre títulos e palavras em português porque a nossa linguagem é muito rica. E hoje em dia o pessoal alinha muito neste tipo de trabalhos.

O tipo de ilustração que estou a desenvolver não é nada de novo e aquilo que faço é descontextualizar os objectos e trazê-los para uma nova forma pictórica, e para dentro de uma nova identidade que pretendo ser a minha com o “Amor de Marta”. E o público é sim, uma parte do trabalho, mas não o considero sequer um impasse para ele.

CVLTO: Qual é a tua opinião sobre esta nova “vaga” daqueles que são conotados por algumas pessoas como “artistas de Instagram”?

Marta: Essa é uma pergunta pertinente e que pode gerar uma discussão, porque há quem defenda positivamente, há quem defenda negativamente. Eu sou a favor do sim. De facto há alguns artistas que funcionam melhor no Instagram e temos que assumir isso. Mas também não sou ninguém para definir o que é que é esse tipo de legitimidade. As redes sociais hoje em dia vieram dar aos artistas mais uma hipótese de divulgar trabalho. Agora, cada um dos artistas tem que saber gerir o seu próprio “negócio”, saber vender o seu peixe… “Se se torna saturado”? Saturado já está e não foi por causa do Instagram.

O Instagram não é um inimigo. Está a tornar-se uma galeria virtual e uma ferramenta de promoção, e temos que saber ver também qual é o objectivo de cada um com essa ferramenta. No meu caso, e no caso da Ilustração é benéfico. Porventura haverão artistas, talvez mais clássicos, que terão outro tipo de opinião. Pessoalmente sempre fui a favor das redes sociais e acho que utilizadas com inteligência, como tudo, permitem uma série de coisas. A única diferença de trabalhares a partir de um website “tradicional” é que estando dentro destas plataformas estás dentro de um esquema em rede, o que para promoção é ainda melhor. E há-de caber a alguém definir o que é que é um “artista de Instagram” ou quem é o artista, ou quem é quem…

CVLTO: E também vivemos um outro tipo de entendimento do que é que é “arte”. Sendo a arte uma coisa mutável ninguém está propriamente à espera que quem trabalha hoje em dia a área artística trabalhe como se trabalhava em 1800, ou em 1980. As coisas mudaram.

Marta: A arte mudou, o gosto mudou. É tudo um reflexo do contexto histórico. E no contexto actual do “imediato” acho que o meu trabalho faz sentido, e de certa forma auto-justifica-se. Num mundo em que é tudo tão rápido o Instagram faz sentido, como fazem sentido as ruas, por exemplo. As ruas têm sido um novo meio de expansão da arte – obviamente que não começou agora, e foram para determinados grupos no passado – mas têm funcionado cada vez mais para novos artistas que se calhar ainda não tinham explorado essa hipótese. E hoje em dia há tanta arte boa, há tantos bons artistas, há imensa coisa e reclama-se essa visibilidade e essa individualidade. Isso também faz parte de ser artista actualmente. Temos que estar a par da rapidez do dia-a-dia, do imediato, da propagação da imagem, e cada um tem que fazer por si.

“Só quero é F…”
CVLTO: Ainda aquando do teu estudo em Belas-Artes, tanto da parte da academia como da parte daqueles que seriam os teus colegas na altura, sentiste algum tipo de incompreensão perante o teu trabalho plástico? Pergunto isto por duas razões: porque há um tipo de entendimento que é o entendimento do público em geral e outro, que está ligado a quem orbita dentro da chamada “esfera artística” e nomeadamente académica. E são entendimentos diferentes. Nem para o mau nem para o bom, mas diferentes. E também porque na altura em que nos conhecemos na FBAUP, lembro-me perfeitamente de que durante anos nunca tinha conhecido ninguém em Portugal que pintasse – em técnica clássica, a óleo – o tipo de temática tão explícita e sexual que tu trabalhas.

Marta: Há um artista, o Carlos Barahona Possolo, que esteve a expôr na Bienal de Gaia e que faz um trabalho que de certa forma se pode considerar na mesma corrente de que o meu. É um trabalho muito mais “Caravaggiano”, com muitos nus masculinos. Tem uma técnica… Já o meu trabalho de pintura é “clássico” especialmente porque é figurativo, mas também já vim a utilizar colagens ou elementos mais contemporâneos. Honestamente eu nunca me senti muito “Belas-artes”.

Não quero ter um discurso completamente “anti”, mas a arte que eu gosto de fazer parte de uma inspiração que vem do povo, das pessoas… Não quero fazer um papel de coitadinha, mas nunca me senti muito aceite. Em relação ao universo artístico que eu conheço – e tendo em conta que eu estudei na Soares dos Reis e esse foi o primeiro contacto com História da Arte, com um estudo da arte mais sério e com as pessoas desse núcleo, que algumas viriam a prosseguir para a FBAUP – senti-me algumas vezes não muito aceite pelo geral, mas extremamente aceite por uma minoria. Extremamente. E que me apoia até hoje. Também fui crescendo artisticamente e com isso aprendendo a saber passar a mensagem que pretendo, porque vivo muito dessa relação entre o trocadilho e quem o lê, mas não foi nas Belas Artes que encontrei as respostas às minhas perguntas.

CVLTO: O mundo artístico está a mudar. E prosperar enquanto artista plástico hoje em dia depende muito de um trabalho de marketing, comunicação e entendimento do mercado. O artista plástico para ser bem sucedido tem de ser um empreendedor por excelência, a não ser que sejas o Eric Fischl e estejas já num nível de carreira tão alto que tenhas um manager. Será que a academia não terá também um défice de adaptação a este mundo artístico em mutação?

Marta: Sim, então em termos de mercado, esquece. Nós saímos com uma ideia completamente utópica do que é ser artista, e de que vamos conseguir certas coisas de determinadas formas. E não invalida que consigamos e isto não é para ser interpretado como um discurso derrotista, mas aquilo que aprendes sobre o mercado e toda essa parte de empreendedorismo acabas por aprender sozinha. Há quem passe anos à procura de uma individualidade que nunca desenvolveu nas Belas-Artes, e eu própria se calhar ainda estou à procura dessa individualidade. E também é essa procura que faz o trabalho.

Depois também depende muito de quem encontras na faculdade. Há professores que te fomentam mais determinado tipo de crescimento e eu pessoalmente tive um ou dois professores que realmente me marcaram pela positiva, e que deram algumas noções do que me esperava cá fora. Mesmo assim essas noções foram-me sendo dadas pela minha própria vida fora do contexto académico.  Cá fora não tens um professor a enviar-te propostas de projectos. Tens-te a ti e ao teu método.

CVLTO: Como é que a tua família reage ao teu trabalho?

Marta: Acho que a minha família neste ponto já sabe como é que eu sou… (risos). Já sabem o que é que a casa gasta. Nem têm grandes comentários a fazer porque nem há hipóteses, sabes? Mas apoiam! Sempre. Especialmente a minha avó…

CVLTO: Disseste-me há pouco que a tua avó é costureira. Tens mais pessoas na família que partilhem esta “veia artística” e que te tenham estimulado a nível criativo? Ou foi uma coisa que descobriste sozinha?

Marta: Eu pinto e desenho desde que me lembro. Sempre foi o que eu quis fazer, e para onde quis ir em termos de formação académica. E fiz tudo para isso, para seguir as artes. Até agora! Agora estou numa espécie de crise identitária… Mas não me imagino sem elas. Tudo bem que temos que nos adequar ao mundo em que vivemos e hoje em dia ser artista e ter um “outside job” é comum, mas continuo sempre a acreditar… Aquilo que faço actualmente, esta temática e este tipo de linguagem já provocou uma série de confrontos, em que me disseram que o meu trabalho não é arte e é o que é, mas eu assumo isso e acredito que o público para isto surja. Isto é um crescimento progressivo.

CVLTO: Delinear a fronteira entre aquilo que é a arte erótica e a pornografia para algumas pessoas será algo muito difícil de conseguir. Para outras, será fácil. Publicámos até, um #Quem Pensa pela Inês Dias, nossa colaboradora, sobre esta matéria (que podem ler aqui). Como te posicionas em relação a esta questão em termos estéticos e visuais?

Marta: Pessoalmente, eu foco-me muito mais na pornografia. É, e sempre foi o meu campo de estudo. Se calhar aquilo que me interessa é mais uma “arte pornográfica”… A meu ver aquilo que difere a pornografia da arte erótica, de um ponto de vista contemporâneo, é que o pornográfico pode ou não ser obsceno. O erótico à partida já tem um intuito de esconder algo. O erótico foca-se no realçar de determinados aspectos ligados àquilo que é a sensualidade. Há algo que se camufla. Já o pornográfico é latente, joga com os limites da obscenidade e da liberdade da expressão e só o observador é que consegue definir isto. E isto é individual; eu terei uma leitura, tu terás outra, outra pessoa terá outra. Se calhar essa estética porno também não é para toda a gente.

Sem querer desvalorizar, acho muito mais interessante uma imagem porno do que uma imagem erótica. Não só a imagem mas o uso da palavra e o trocadilho também. Os “slangs”… Palavras como “piça”, “cona”, podem ter um impacto fortíssimo. Para algumas pessoas será imenso e será impensável, outras adoram. E hoje em dia temos os media, temos publicidade, temos videoclips recheados de mensagens subliminares. Muitas vezes este subliminar é porno, mas é exposto de uma forma que é acessível para o consumo, e as pessoas querem essa luxúria.

Esta é uma geração sexualizada, e não porque isto seja de agora… Se começarmos a recuar a isso vê-se na geração dos 50’s, a comercialização do corpo, a Pop Art. O Blue Movie do Andy Warhol foi o primeiro filme porno a passar nos cinemas e até hoje, a pornografia continua a causar alguma coisa. Esse também é um motivo para que tantos artistas recorram a isso. Há coisas que já não funcionam, já não escandalizam. Não querendo implicar que seja esse o objectivo. E tem que existir muito cuidado e inteligência na utilização da imagem, para também não se cair no naíve. No ser, só por ser. Por trás de uma imagem tem que estar um pensamento. Nem que a imagem seja só uma queca na parede. Não é pelo choque, é pela afirmação.

CVLTO: Então a arte também é contexto? O que é que aconteceria se alguém pegasse num frame de um filme pornográfico e o colocasse exposto numa galeria?

Marta: O Jeff Koons fez isso na serie “Made in Heaven”, na altura em que estava casado com a Cicciolina. O trabalho dele mais recente é muito diferente disto, mas na altura essa serie foi aquilo que lhe deu o “boost” na carreira. Estamos a falar de quadros e esculturas enormes deles a fazerem sexo, nas quais se via penetração, tudo. Um dos quadros esteve até em Serralves. E ele foi muito inteligente na forma como soube fazer aquilo, a altura em que o fez ser o momento em que Cicciolina estava a concorrer à presidência, ele enquanto marido dela e artista em ascensão… E até hoje, esta série é conhecidíssima e o nome Jeff Koons tem o poder que tem. Mesmo na altura, considero que foi um trabalho extremamente bem aceite para aquilo que representava. O objectivo dele era tornar o porno em High Art. Não sei se o meu objectivo é esse. Para muita gente a imagem do sexo é obscena, é porca, é banal, apesar de toda a gente o fazer. Mas essa imagem faz sentido dentro de um museu? Absolutamente.

CVLTO: Dirias que o teu trabalho parte de um conceito directamente oposto ao que é o amor? O teu trabalho é sobre amor?

Marta: Oh pá… (risos) O meu trabalho tem imenso amor. O meu trabalho é sobre amor. O meu trabalho é amor disfarçado e só eu o entendo. O amor faz parte de mim e do meu quotidiano. Faz parte da vida, e faz parte do sexo. Mas prefiro mantê-lo para a minha interpretação pessoal… Tu também consegues vê-lo se quiseres, apesar de estar camuflado.

CVLTO: As tuas influências, quais são? Sejam elas plásticas, ou não.

Marta: As pessoas que me rodeiam. As lojas dos chineses (risos). Esquece… Eu tenho um ritual, se vou a qualquer sitio, tenho que entrar nas lojas dos chineses por onde passo. E fico lá horas! A ver tralha, à procura de marcas chungas e trocadilhos possíveis com elas. E atenção! Eu gosto e considero que homenageio o chunga.

A música. A música também me influencia imenso. Eu venho de um background muito ligado ao Metal e ao Rock, apesar de até achar que estou aberta a ouvir e conhecer diferentes tipo de música. Mas gosto de ouvir músicas sem conteúdo nenhum porque me inspiram imenso para o meu trabalho plástico. Não são músicas que estão necessariamente na minha playlist, mas estão decididamente no universo em que eu trabalho. Olha, Conjunto Corona. Há quem diga que aquilo não é música, que são um grupo para a tanga, que canta sobre meias com chinelos… No entanto, o álbum Cimo de Vila Velvet Cantina é de uma inteligência soberba porque consegue combinar uma série de contextos daquilo que é o kitsch por exemplo, numa estética própria. E é esse universo que eu procuro. O Chico da Tina, também. No fundo são artistas que trabalham no mesmo panorama que eu. Não estou a falar de coisas como Daddy Yankee. E a pornografia, claro. Mas isso já nem se questiona! Os homens… E a ganza.

CVLTO: Fala-me do conceito de Kitsch.

Marta: Bom, o kitsch tem várias aplicações, e pode ser utilizado para catalogar uma arte muito passada ou para definir algo actual. De certa forma é um termo intemporal porque pode aplicar-se a objectos, arte ou imagem do chamado “mau gosto”. Eu não gosto de pensar o kitsch só como arte ou não-arte. Aquilo que eu faço é arte, e o kitsch é mais uma ferramenta para eu desenvolver o meu trabalho. Há quem considere as cultura visual vintage uma coisa kitsch. Os cães de loiça, por exemplo. Mas quando produzes tu o kitsch, também não podes fugir muito, senão deixa de ser kitsch. O kitsch também se relaciona imenso com a porno, e faz todo o sentido trabalhá-los em conjunto. Ambos dependem muito da recepção e aceitação do observador. Se este gosta ou não. E quando não se “gosta”… Não posso afirmar que é arte, mas tem a capacidade de nos remeter para um passado que é muito presente.

A estética VaporWave é um exemplo, ou mesmo as pessoas. Há pessoas kitsch! E em mim surgiu por aí… Eu vivo com os meus avós, numa espécie de clash de gerações e são eles que me trazem o meu kitsch diário. Têm uma mentalidade completamente diferente da minha, e acho tão interessante esse kitsch muito português. E Portugal tem muito kitsch. Então o Porto… Temos imensos elementos icónicos, e temos uma população idosa que tem muita graça. Eu cresci no Bolhão, cheguei a dormir em caixas de fruta porque tinha uma tia que lá trabalhava e acabava por vezes por lá ficar o dia todo. Elas só a diziam asneiras aos berros, e eu sempre achei aquilo o máximo… “Vai para o caralho!”… É cultura. E o facto de viver com uma geração tão diferente da minha faz-me adorar esta estética… E depois a minha avó decora a casa com aquelas coisas mesmo chungosas, que eu de certa maneira adoro e vou buscar aquilo para o meu trabalho. E é inesgotável. Tens sempre mais material para reinventar. Até porque já foi tudo feito.

CVLTO: O teu trabalho está relacionado com a tua experiência com homens? Partindo do princípio que te considerarás heterossexual.

Marta: Hoje vê-se muito a utilização do sexo como imagem de protesto ou vínculo de transmissão de uma mensagem. No entanto, o meu trabalho não tem essa componente de reacção. É mais como uma celebração muito pessoal do que é a minha sexualidade, enquanto mulher. Porque não? Porque é que eu não posso falar de pila? De sexo? Porque é que eu não posso assumir que vejo um filme porno? Ou pegar nessas imagens e trabalhar sobre elas. Se calhar num contexto mais de Belas-artes, isto liga-se muito ao empoderamento feminino ou a questões LGBT. Mas fora dessa esfera, terá a conotação que tiver que ter.

Não me preocupam as interpretações. Faz parte disto o artista dar a cara pelo seu trabalho, e já tive feedback positivo, já tive feedback negativo e por vezes coisas completamente fora de contexto, até associações com situações pessoais ao meu trabalho que não têm nada a ver… Isto é “só” uma celebração do que eu vejo, do que eu sinto, do que eu assimilo, do que é o amor, do que eu sou enquanto pessoa sexual.

CVLTO: Projectos para o futuro?

Marta: Voltar a pintar, espero poder começar alguns projectos nos próximos meses. Sempre em grandes escalas… Continuar em paralelo com a ilustração. Este ano já fiz uma exposição, gostava de ainda fazer mais uma.

CVLTO: Pensas alguma vez distanciar-te desta componente sexual no teu trabalho plástico?

Marta: Isto é onde eu me encontro agora. Actualmente a minha identidade é esta. E epá… Se deixo a parte sexual dedico-me à parte deprimente, por isso prefiro fumar uma ganza, beber uma cerveja e continua a pintar sobre sexo (risos). Se mudar, é porque isso mudou naturalmente. Se calhar quando assumir o amor verdadeiro farei arte sobre ele.

 

Texto e entrevista: Ana Garcia de Mascarenhas

 

Ilustrações: Amor de Marta