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#QuemPensa é Zita Moura: “A palavra já não é dos intelectuais”

#QuemPensa é Zita Moura: “A palavra já não é dos intelectuais”

A palavra saiu dos seus salões poeirentos.


Para lá das leituras de poesia, discussões sobre temas fracturantes, experiências com teatro do oprimido, este culto à palavra prevalece sob nova capa.

“Pra quê discutir com madame”, de João Gilberto.

“What if punk never happened”, dos King Blues.

“They Schools”, dos Dead Prez.

Três músicas e artistas com aparentemente nada em comum. E ainda assim, foram estas três músicas que me ensinaram mais sobre arte e cultura popular do que qualquer livro, qualquer reportagem, qualquer documentário.

Aqui há dias, mostravam-me um still do filme “Howl”, sobre o poeta Allen Ginsberg. Um café nova-iorquino no final dos anos 50, atolado de fumadores e alcoólatras, que se juntavam em mesas como quem assiste à missa para ouvir um poeta enlouquecido ler um ode à loucura da sua geração – no caso, a Beat Generation. E perguntavam-me: “isto não pode acontecer?”.

A questão é que acontece. Para lá das leituras de poesia, discussões sobre temas fracturantes, experiências com teatro do oprimido, este culto à palavra prevalece sob nova capa.

Estas três músicas que enumero ensinaram-me, cada uma à sua forma, que a palavra e a intelectualidade já não são o império inconquistável dos intelectuais (essa raça perigosa). Vamos por ordem cronológica, a ver se a coisa faz mais sentido do que um discorrer de parvoíces zangadas.

“They Schools”, Dead Prez. “Let’s Get Free”. (2000)

The same people who control the school system control

The prison system, and the whole social system

Ever since slavery, nawsayin’? (…)

They ain’t teachin’ us nothin’ but how to be slaves and hardworkers

For white people to build up they shit

Make they businesses successful while it’s exploitin’ us”

Para quem entrou na política pelo punk e pelo metal, o hip hop afigurava-se-me como sendo para lá de grotesco. Especialmente porque o único hip hop com que tinha contacto era do mais comercialucho e mais desprovido de mensagem que existe. Nós sabemos que hip hop é esse. Foi mais ou menos por acidente que dei de caras com o hip hop chileno, e mais tarde com Dead Prez, que me ensinaram mais sobre política socialista (da verdadeira) do que qualquer banda punk.

A quem tenha crescido com hip hop, isto pode parecer só uma parvoíce – que é, de facto – mas este duo de hip hop mostrou-me que a militância e o activismo político cobrem-se de muitas realidades totalmente alheias à minha. Afinal, eu só ouvia punk escrito e tocado por gente mais ou menos como eu – brancos, heterossexuais, de classe média, com rastas.

Os Dead Prez arrancaram-me da minha realidadezinha, da minha bolha, e mostraram-me de uma forma brutalmente crua o que é política e activismo social que não leva um A de anarquia cozido num colete de ganga mal-cheiroso.

Em especial esta música, “They Schools”, consegue colocar em palavras tudo o que nunca consegui expressar relativamente ao sistema educativo, porque não era a minha experiência. Felizmente há sempre quem fale melhor que nós.

E tudo isto sobre os Dead Prez para dizer o seguinte: embrulhei-me na minha pseudo-política radical que se cobria de rastas e cristas e patches e As de anarquia, e nunca considerei sequer o que outros movimentos, outras escolas pudessem ter a dizer sobre as suas experiências. Este duo nova-iorquino, que vem do gangster rap, traz temas marxistas, pan-africanistas e socialistas para a sua produção cultural. E leva essas aprendizagens a jovens marginais e/ou marginalizados. Não fossem eles, nunca teria aprendido sobre pan-africanismo e nunca teria chegado a outros grandes artistas de hip hop que têm tanto a dizer sobre o mundo e a sociedade.

E não precisam de longas barbas brancas e nomes impronunciáveis para o dizer.
“What if Punk never Happened”, The King Blues, “Save the world, get the girl” (2008)

Man, action’s at a low when people just don’t care

They zoned out to their surroundings, the anger’s not there

And I’m stuck in this hippy, grunge reality

Where the buildings are crumbling down from apathy

Yeah they grab you at school when you’ve just turned 13

And show you your brand new, life long routine

You can sleep and work, and work and sleep

 

Não sendo fácil encaixotar os The King Blues nalgum rótulozinho destes que me deixam tão confortável, é fácil dizer que esta é a única música deles que aprecio. E é sem dúvida das músicas que mais me marcaram, e marcaram o meu amadurecimento político.

Num ritmo e cadência de hip hop, contam a história de um universo paralelo em que o punk nunca existiu. E ainda que bata forte no meu coraçãozinho por isso mesmo, a maior aprendizagem que tirei desta música é a de visualizar um mundo onde não há raiva.

Protesto na Escócia contra as políticas de Margaret Thatcher, em 1988.

Depois de tanta literatura mais assim ou mais assado, de tanto velho barbudo que li, de tanto documentário denso e intragável, sobre a necessidade da revolução social, da auto-organização, da sustentabilidade, blá blá blá whiskas saquetas, estes totós londrinos conseguiram demonstrar o que ainda não tinha conseguido perceber.

O que a apatia faz ao mundo, o que a rotina consumista e capitalista faz aos jovens. A falta que a raiva faz. A falta que a comunidade faz.

Ao puxarem esta discussão e esta conversa – que faz cada vez mais falta – para um nível que não seja hermético ou metafísico, conseguiram concretizar o tema e os pontos que apresentam. Sem usarem chavões ou lugares comuns, conseguem contar a história de um mundo que se deixou engolir pela paz e apatia, conseguem contar a história de uma cidade que foi enrabada a seco e ainda agradeceu – e desculpem-me o brejeirismo.

Mas recomendo vivamente que se ouça a música e se leia a letra com atenção. Porque ela é o melhor argumento a este meu ponto.

Madame diz que a raça não melhora

Que a vida piora por causa do samba,

Madame diz o que samba tem pecado

Que o samba é coitado e devia acabar,

Madame diz que o samba tem cachaça, mistura de raça, mistura de cor,

Madame diz que o samba democrata, é música barata sem nenhum valor (…)

A primeira vez que ouvi esta música, este magnífico samba, pela guitarra e voz de um amigo brasileiro, achei a música jingona, divertida. Mas fiz pouco caso dela.

Quando a reescutei, uma e outra e outra e outra vez, percebi o que ela significava, e o que ela significa.

A experiência política e social já não se traduz só em livros densos e chatos.

Na altura que cruzei caminho com o João Gilberto e esta madame que ele canta, o funk brasileiro enchia as colunas das discotecas e das rádios. Assisti, impávida e serena, como os meus pares – ligados ao punk, e ao rock, e ao metal – diziam as maiores grosserias sobre o funk e quem o aprecia. Em grande parte, assinei por baixo ao que diziam.

Afinal, é música popularucha, sem graça, sem tino, sem mensagem. É música para rebolar até ao chão, e pouco mais. E eu, oh p’ra mim intelectual de esquerda com a cabeça rapada, refugiava-me nos meus discos e nas minhas músicas carregadas de política a cada verso.

Até que percebi: “caralho, eu sou a madame”.

A madame que tanto censurava o samba por ser música barata sem nenhum valor. Sou eu. Eu do alto do meu hip hop hiper politizado. Eu do alto do meu anarcho-punk. Eu do alto da minha omnisapiência arrogante diminuía outros géneros musicais e outras manifestações culturais por achar que elas não eram tão elevadas como “as minhas”.

 

Voltando ao princípio desta conversa. O culto à palavra que o meu amigo apontava, e perguntava se “não podia acontecer”, prevalece. Veste-se com novas roupas. Já não usa fato de três peças e chapéu Panamá – não só, pelo menos. E a palavra já não se veste com os mesmos trapos, também.

Hoje o culto à palavra e à mensagem política usa calças largas e gorros de malha, usa botas de biqueira de aço e t-shirts de algodão, usa tinta verde no cabelo e lantejoulas nas mamas, usa tudo isso e não usa porra nenhuma. O culto à palavra saiu dos cafés dos intelectuais, das igrejas, da santíssima palavra poética.

Já nem sequer é culto à palavra, porra. É um concerto.

A experiência política e social já não se traduz só em livros densos e chatos. Agora ela traz beats duros, ou melodias divertidas, e refrões pegadiços. Ela vem pela voz de quem cante samba ou funk, ou quem toque guitarra numa banda crust ou a solo, ou quem tenha uma versão crackada do Logic Pro e um microfone ranhoso.

A palavra já não é dos intelectuais. A palavra saiu dos seus salões poeirentos e está nas mãos e nas vozes de quem, não sendo intelectual, tem coisas muito mais importantes a dizer.

 

Sem título – Daniela Doe