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#OndeEstão as 7 Igrejas do Apocalipse

#OndeEstão as 7 Igrejas do Apocalipse

"We were intentionally trying to start our own thing and make the "Heaviest/Darkest/Fastest" music/band out there."


Por muito amedrontados que nos sintamos com a ideia de admitir que existem colossos musicais – sejam estes bandas, álbuns ou concertos inéditos – que se cruzaram connosco nada mais, nada menos, do que por pura e dura coincidência e não por fruto da nossa experiência ou “cultura” musical tão épica quanto vasta, o que é facto é que não há alma penada que caminhe no scene da música pesada que não seja uma nódoa ignorante em relação a uma das milhentas e incríveis bandas dentro da música dita underground.

Não se enganem: até o mais gabarolas dos vossos amigos de casaco de admiráveis patches terá um ou vários calcanhares de Aquiles cuja arte de evitar em conversação já dominou em mestria.

Posto isto, é importante dizer: Malta, está tudo bem.

há um amor flamejante entre mim e o Diabo.

Ninguém é uma enciclopédia musical andante, e para bem de todos a música é uma arte sem fim. Será isso o que nos permitirá daqui a uns anos andar por cá – com mais umas mazelas de mosh pits e certamente de fígados mais estragados – a descobrir sempre, e para sempre, música que ainda não tínhamos ouvido antes.

Durante o meu processo ainda adolescente de descoberta musical, rapidamente percebi que por muita música que oiça e estude, e que por muitos géneros musicais que seja capaz de apreciar, há um amor flamejante entre mim e o Diabo que vai sempre fazer com que algumas bandas e artistas me mantenham cativa dentro de determinados géneros de forma mais acentuada. E o álbum Seven Churches (1985) dos Possessed foi o portal mágico que me permitiu ainda com 13 ou 14 anos perceber que existia música muito mais rápida, malvada e arrebatadora do que aquela a que eu tinha ainda acessado.

Tive a sorte de ter pais que me cultivaram o bichinho do Rock n’Roll que anos mais tarde se tornaria um monstro de imparável crescimento, alimentado pelo Santana e os Camel no carro nas idas para o Algarve, o meu maravilhoso professor de Formação Musical que nos alegremente relembrava aula sim, aula não, de que o Vivaldi foi o primeiro compositor de Heavy Metal, e um colega de escola que praticava a malfadada pirataria que me permitiria uma colecção de CD’s gravados mal e porcamente no Windows Media Player para ouvir no Discman. No entanto, descobriria Possessed pelo maior mero acaso depois de ver o filme The Exorcist numa “festa do pijama” (que me deixaria sem dormir durante quase um mês) enquanto deambulava pela ainda meia arcaica internet da altura em busca do “Jogo do Ponto”.

Lembram-se?

Admito que o meu inquestionável quase fanatismo pelos Possessed culminou numa pressão auto-imposta desmesurada em escrever este artigo no formato de review, aquando do concerto de 19 de Junho no Hardclub. Esta banda foi sempre muito mais do que um concerto pelo qual venderia um rim para estar presente, e apesar da sensação arrebatadora com que saí da Sala 2 do Hardclub naquela noite, essa sensação só tornou ainda mais difícil tentar resumi-los a meia dúzia de adjectivos genéricos e uma pequena lista das malhas que se puderam ouvir num texto simpático de se ler.

Considero – se é que posso tecer considerações desta natureza a quem esteja a ler isto – importantíssimo para quem goste realmente de música prestar atenção aos Possessed e respectiva discografia, com especial ênfase ao primeiro álbum. Seven Churches (1985) vem no encadeamento de duas outras demos: Death Metal (1984) e Demo 1985(1985), numa altura em que o termo “Death Metal” não existia sequer enquanto sub-género. Citando Jeff Becerra, baixista e vocalista:

“(…) we decided to start calling ourselves “Death Metal” way back in 82/83 because of the fact that we were intentionally trying to start our own thing and make the “Heaviest/Darkest/Fastest” music/band out there. Of course today there are so many “fast” bands that it would literally be impossible to judge the “fastest” or “heaviest” one out there. But it is definitely very fun trying. As you know since the days whenever Possessed started Death Metal has become it’s own genre which is something I never would have imagined and is beyond my wildest expectations. To be honest whenever we started calling ourselves Death Metal we thought that Possessed would be the only “Death Metal” band out there. So after some years whenever other bands started calling themselves “Death Metal” it was amazing.(…)”(Becerra, 2015)

Seven Churches é o hino por excelência aos vossos rituais nocturnos e duvidosos no meio da floresta.

Mais importante do que a discussão sobre se Seven Churches é ou não o primogénito por excelência do Death Metal – o que, pessoalmente, acho tornar-se ligeiramente injusto para bandas do mesmo calibre, como Death, Obituary, Morbid Angel ou Necrophagia, e para precursores como Venom, Slayer ou Exodus, que permanecem até hoje enquanto largas influências na produção musical deste registo – é a natureza extrema e alucinante deste álbum, que é reforçada pelo misticismo adjacente, quer a nível lírico, como na imagética e na sonoridade.

The Exorcist (1985), Pentagram (1985) e Fallen Angel (1985) são os exemplos mais proeminentes a nível sonoro, sendo que a primeira marca o início do álbum com uma sample do tema Tubular Bells Pt.1 (1973) de Mike Oldfield, tema utilizado ainda como track principal do filme “The Exorcist” no mesmo ano. Pentagram (1985) inicia-se com um gutural digno de um pesadelo em Elm Street, enquanto Fallen Angel (1985) por outro lado, é marcada por um sino assustador perigosamente bem alinhado com a linha de guitarra, reforçando uma e outra vez que Seven Churches é o hino por excelência aos vossos rituais nocturnos e duvidosos no meio da floresta. O próprio título do álbum e da quinta faixa integrante do mesmo, é uma alusão às Sete Congregações da Ásia menor, ou Sete Igrejas do Apocalipse, oriundas do livro do Apocalipse no Novo Testamento – Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sárdes, Filadélfia e Laodiceia, e respectiva mitologia cristã.

Jeff Becerra, frontman e actualmente o único membro restante da formação original, é também possuidor de uma voz inconfundível que é grande parte responsável pelos motivos que tornam Possessed uma das bandas mais amadas dentro do Death Metal. É característica não pelos guturais alucinantes geralmente associados ao género, mas por berros de um registo muito mais constante que só se tornam ainda mais assustadores pela passividade e tessitura com que se misturam em conformidade com os restantes instrumentos e sonoridades. Merecedor da fama de uma voz inconfundível e irreproduzível, foi assombroso verificar que depois de mais de trinta anos desde Seven Churches, um total de mais de vinte anos de inactividade na vida da banda e um tiroteio terrível que o deixariam dependente de uma cadeira de rodas (sendo que uma das balas lhe perfuraria um dos pulmões), Becerra mantém uma capacidade vocal fantástica e em muito semelhante aos anos oitenta. É de salientar que foi uma das melhores presenças em palco a que tive o prazer de assistir.

Este concerto, cortesia da impecável SWR inc. – Sonic Events – produtora responsável pela produção do SWR Barroselas MetalFest e sobre o qual poderão ler o report da CVLTO aqui da edição de 2019 – fez parte da tour que se seguiu ao lançamento do aguardado álbum Revelations of Oblivion (2019), lançado no passado mês de Maio pela Nuclear Blast.

A noite deveria ter contado com a presença dos noruegueses Nordjeve, que cancelariam as datas em Portugal poucos dias antes, deixando a primeira parte a cargo dos portugueses Alcoholocaust, nome familiar dentro do Thrash Metal português. Foi a primeira vez que vi Alcoholocaust ao vivo e não havia melhor aula de Pilates para ter antes de um concerto de Possessed.

Alcoholocaust.

Todos os clássicos pelos quais a plateia podia ansiar foram tocados, principalmente do primeiro e último álbum. Todas as expectativas do que seria assistir a Possessed ao vivo foram preenchidas.

Não foi nem mais nem menos do que o esperado; uma prestação irrepreensível, por parte de uma banda inigualável.

 

Texto e fotografias: Ana Garcia de Mascarenhas